Ontem eu vi Isabela, ela estava num cruzamento da cidade próxima de um farol que se fechava. Ela correu até um carro bateu no vidro com insistência apenas pedia um trocado.
Ontem eu vi Isabela, ela estava sentada sozinha olhando o vazio enquanto passos apressados por ela passavam sem nada dizer.
Ela se sentia uma coisa, um objeto sem vida, inanimado, ignorado na rotina da vida.
Ontem eu vi Isabela seu sorriso já não era tão meigo, sua beleza se encardia na poluição da maldade de corações embrutecidos que não a enxergam viva.
Ela falava, cantava, chorava, mas todos estavam surdos.
Ontem eu vi Isabela, caminhava cansada sem direção, sem rumo, sem colo nem afeto. Procurava não algo, mas alguém, ela não procurava encontrar, mas ser encontrada.
Ontem eu vi Isabela, explorada, esquecida, adoecida num depósito amontoado de pessoas não lembradas. Estava viva, mas já não vivia, sua esperança fora roubada e seus sonhos mais lindos despedaçados.
Por aquela Isabela ninguém clamou por justiça, por aquela Isabela ninguém chorou, nem mesmo mãe, nem avós, nem políticos, nem artistas. Por ela as multidões não correram em socorro e sua vida morta se esvaía lenta e escandalosamente discreta.
Talvez amanhã já não mais a vejamos… talvez paradoxalmente ergueremos nossas vozes quando se for, talvez quando a dor da tragédia se materializar diante dos olhos e das consciências outrora cegas, talvez naquela hora lembremos que só quando se vê Isabela viva é que jamais uma Isabela morre em vão.
Você tem visto Isabela?